Eu queria ser o Che Guevara (mas não consegui)

cienfuegos

XXVI. DA MEDIOCRIDADE

“Nossa alma incapaz e pequenina
Mais complacências que irrisão merece.
Se ninguém é tão bom quanto imagina,
Também não é tão mau como parece.”
Mario Quintana
Espelho mágico

Eu queria ser o Che Guevara,
Mas não consegui…

Largar meu emprego público
Para subir a Sierra Maestra

Eu queria ser Anais Nin,
Mas não consegui…

Uma mãe de família
Não pode ter 2 ou 3 amantes

Nessa linha mediana
Nesse meio do caminho
Cada vez mais perto do fim
Encontro as verdades que libertam
Que quase sempre estão em mim

No jogo de sombra e luz
Um contraplongée

Para parecer maior
Para parecer acima de ti
Na foto em preto e branco
Parece, mas não sou eu

Eu estou aqui
Com os pés no chão
Com minhas dores
Com meus pinos de platina
um pouco acima do nível do mar, talvez.

Distribuo certezas momentâneas
coerentes com meu coração congelado
e com meu corpo rígido

Me defendo como posso

Ah como eu queria ser Che Guevara
E ser deliciosamente livre
Só não sou livre do engano
Não quero sê-lo, nem posso

Inescapável engano
Inescapável morte
De um guerrilheiro abandonado em La Higueira

E até hoje não se sabe
o que aconteceu a Cienfuegos.

O Pássaro Azul

bluebird

Do Velho Safado, Bukowisk  

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

And the glitter is gone

And the glitter is gone

Ele não entende, eu sei.

Ele sabe, eu não entendo.

Ele odeia o Tony Ramos

E gosta de tirar fotos em frente a monumentos históricos

Seu sorriso trôpego desfila pela rua do Catete depois de 20 chopps

O Bukowsky do Hotel Imperial

No bar do Zé

Ele diz que odeia os cariocas.

Mas não o Rio de Janeiro.

Ele busca a lojinha e come pipoca

Ele comenta o meu decote e estava com o último botão da camisa fechado

Ele falou que lembrava da minha fantasia de transar com dois ao mesmo tempo

Bem, eu me lembro que, naquela conversa longínqua, ele disse que se acontecesse era pra convidá-lo.

Isso ele não comentou…bem, ele disse que lembrava de TUDO.

Só não lembrava do ano em que a gente se encontrou. Num lugar ironicamente chamado ALEGRE.

Lembro que naquele ano ouvi Yo la tengo num especial da MTV e aquele som envolvente imediatamente me lembrou dele

Mal sabia eu…

Naquele tempo, no nosso segundo encontro, eu perguntei se era professor titular (mera pergunta retórica)

Ele de modo sarcástico falou: sim, um bom partido né?

Juro, nunca havia pensado no assunto e me dei conta:

minha mãe não me ensinou que deveria procurar um bom partido

e sim seguir meu coração. Talvez por isso ela tenha morrido cedo.

Die young, live fast

Ele não sabe, mas até hoje guardo as pétalas da rosa vermelha que me deu.

O amor é velho já dizia Tom Zé.

Because the wind is high

Love is old, love is new

Sei que até hoje ele duvida do meu apaixonamento à primeira vista.

No restaurante árabe me chamou de vintage, de antiga, por causa da minha crença na paixão, essa estranha.

Ele implica comigo e eu gosto.

Além de platino, ele é alemão

ALEMAO. Só não sei se do Sul ou do Norte.

Ele é bárbaro e não levou seu machado.

Mas prometeu me jogar num buraco caso eu estivesse levando ele para o lugar errado

Levei ele pra um lugar de cervejas especiais, ironicamente chamado Carioquinha

Tem um outro melhor ainda, mas era muito longe

Claro que ele estava de estampa xadrez.

Ele não me explicou quem é Germano D.

Ele disse que quando eu falei que tinha feito uma merda, achou que eu tinha tatuado seu nome na bunda.

Menos mal.

Comprei um ingresso para o show sem consultá-lo.

Me convidei.

Ainda bem, senão estaria até hoje no  limbo das coisas que não merecem respostas.

Ainda bem, pois foi bom demais estar com ele naquela noite e naquela madrugada. Ruim foi ir embora. Ruim foi a febre que veio na madrugada e ensopou os lençóis. Ruim foi acordar com vontade de morrer. De novo.

Ele reclamou quando me olhei na vitrine espelhada enquanto discutíamos

Ele reclamou que não dei parabéns

Ele disse que armei direitinho, a carioca golpista

Ele aventou a possibilidade de pegar o ingresso e ir embora sozinho

Mas desistiu, nem sei bem  por quê

Me parece que ele sempre coloca a culpa em mim, por TUDO

Mea culpa, mea massima culpa…pagã. A culpa pagã de quem não foi batizada na igreja.

Parece que tem um sósia seu no Rio de Janeiro

Um tal de João

Ele andou de chinelo e meias brancas no Largo do Machado

E reclamou que alguém confundiu ele com um gringo anglo-saxão

Ele me fez companhia, acho que fiz a ele também

Além disso, achei um vinil no chão,

Que ele fez questão de levar

Eu já sabia que a filha dele gostava de Beatles, a minha também gosta

Descobri que ele não sabe bloquear pessoas no gtalk. É tão fácil

Eu sei o que é achar que foi bloqueada  por ele no gtalk.

Descobri que ele tem sérios problemas de visão, pois teve o desplante de dizer que não é bonito.

Também disse que não era legal e baixou a cabeça.

Nessa hora, acho que eu precisava de mais um trago. Ou de uma garrafa inteira.

Para esquecer ou não acreditar no que ouvia. Para rebater.

Falou que nunca perguntei se ele queria.

Me lembro de ter perguntado algumas vezes o que queria de mim e não obtive resposta, me lembro de ter pedido para conversar e a resposta foi não.

Ouvi não, ouvi que era impossível, que não podia. A gente não pode, o que a gente não quer. Sem respostas fui em busca de alguma.

Invasiva, autoritária, impositiva, todos os adjetivos de alguém que quer demonstrar força, poder, pressão. Logo eu,  que fiz de tudo para fugir, para esquecer, para sumir, que me senti uma merda de mulher, que fui a nocaute diversas vezes e tive que me levantar.

Que poder é esse? O poder de um beijo de surpresa dado numa van escura…só se for.

Eu não o possui. Eu lhe dei um beijo. Nem sabia se havia quarto, desejo. Segui meu coração. O restante foi de comum acordo. Ele reclamou da caretice e eu trouxe a subversão…

O estranho é novo, misterioso, assustador, não necessariamente ruim.

Tudo isso é muito estranho. E de nada adianta buscar explicações racionais. Isso tudo é da parte do invisível, da alma, do sensível.

É da seara do delírio.

E quando eu mais me empenhava em esquecê-lo, ele veio e me disse tudo o que eu mais queria ouvir, naquele 2013, cheio de bombas de gás e sprays de pimenta, quando as placas tectônicas dos corações revolucionários se moviam e os mares de utopias se revolviam. Quando tudo parecia mudar. E não mudou e mudou, quando o sonho virou outro sonho, de sonho em sonho, encontrou-se um muro. Pra ser feliz tem que pular o muro. Ou derrubá-lo. Acho que o muro desabou sobre mim.

E ainda me debato sob os seus escombros.

Ele falou que eu queria sexo, carinho e atenção e que aquilo ele não poderia me dar.

Pensando comigo mesma, será isso o que eu quero? Não quero algo que o outro não possa me dar, quero que o outro possa ser o que ele é, com sua verdade, com sua vontade, não quero coisas, quero estar perto de uma pessoa que me (co)move.

Disse que poderia me dar sua companhia, sua conversa. E não é isso que tem me dado esses anos todos? Foi isso que me fez continuar. Não fizemos companhia um ao outro? Se quisesse sexo, carinho e atenção já teria desaparecido a muito, se fosse simplesmente por isso…se fosse pelas coisas, pelos compartimentos e não pela pessoa.

Eu tinha sexo, carinho e atenção no meu casamento e abri mão porque não era a minha verdade, não era a vida que desejava, não era pleno.

“Cuando te doy quiero que me des, no por lo que me puedes dar sino por el placer de ver que eres capaz de dar y no solo de pedir.”

Ele me disse que pode ser meu amigo. Isso me deixou feliz.

Espero que seja verdade. Apesar de não saber o que significa ser amigo para ele.

Tenho a impressão de que ele nunca mais vai querer me encontrar.

E que a partir de agora só terei desprezo e silêncio.

Um dia me disse que achava que eu tinha deletado ele da sua vida. Como pôde?

Não é do meu feitio deletar pessoas da minha vida, pelo contrário, é da minha péssima índole amar pessoas e incluí-las na minha vida sem mais nem menos.  Só me recolhi, como costumo fazer quando dói. Mas não adianta, continua doendo…

Não sou um sistema operacional. Não tenho um botão de liga e desliga. Infelizmente, o brilho eterno de uma mente sem lembranças não me escolheu.

Ele me disse que o virtual basta. Só não entendi o quanto desse virtual basta, o quanto de real tem nesse virtual. E em quanto cobrir meu decote vai me fazer sentir menos dor.

Infelizmente sou real, um desengano bem real. Que dói, que se dói. Que está doendo nesse exato momento no peito.

Pelo jeito minha performance no teatro virtual foi melhor do que na vida real. Melhor a foto do que a pessoa. Metonímia de mim mesma que esconde uma metáfora cruel.  Sem Photoshop.

O papel que me foi dado no teatro foi esse, por que aceitei? Porque queria estar perto. Porque queria vê-lo. Porque queria saber aonde isso tudo daria. Porque foi o meio de acesso que me deu. Porque quis tentar.

Mas nada disso importa (mentira, importa sim), o que importa é que ele odeia o Tony Ramos. E que nossos encontros são inesquecíveis e inspiradores. E tristes, imensamente tristes. Como nós. E que You can have it all foi a melhor música do show.

E que o Camelo é mesmo um chato. E que o último disco do Amarante é lindo (pra caralho).

https://soundcloud.com/rodrigoamarante/nada-em-v-o

 

King of clouds: Control

King of Clouds: Control                 king-control

There is a time and a place for control, but if we put it in charge of our lives we end up totally rigid. The figure is encased in the angles of pyramid shapes that surround him. Light glitters and glints off his shiny surfaces, but does not penetrate. It’s as if he is almost mummified inside this structure he’s built up around himself. His fists are clenched, and his stare is blank, almost blind. The lower part of his body beneath the table is a knife point, a cutting edge that divides and separates. His world is ordered and perfect, but it is not alive–he cannot allow any spontaneity or vulnerability to enter it.

The image of the King of Clouds reminds us to take a deep breath, loosen our neckties and take it easy. If mistakes happen, it’s okay. If things get a little out of hand, it’s probably just what the doctor ordered. There is much, much more to life than being “on top of things”.

Controlled persons are always nervous because deep down turmoil is still hidden. If you are uncontrolled, flowing, alive, then you are not nervous. There is no question of being nervous–whatsoever happens, happens. You have no expectations for the future, you are not performing. Then why should you be nervous?

To control that mind one has to remain so cold and frozen that no life energy is allowed to move into your limbs, into your body. If energy is allowed to move, those repressions will surface. That’s why people have learned how to be cold, how to touch others and yet not touch them, how to see people and yet not see them.

People live with clichés–“Hallo. How are you?” Nobody means anything. These are just to avoid the real encounter of two persons. People don’t look into each other’s eyes, they don’t hold hands, they don’t try to feel each other’s energy, they don’t allow each other to pour–very afraid, somehow just managing, cold and dead, in a straitjacket.

(Osho Dang Dang Doko Dang, Chapter 5)